terça-feira, 31 de maio de 2011

texto do André Dahmer,
que sempre teve razão.


Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem. E o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.


André Dahmer
[http://malvados.wordpress.com/]

quarta-feira, 11 de maio de 2011

chega de dramas, pra ser lido é preciso alegria.
é preciso alegria e imagens. setecentas imagens sem sentido.
chega de poesia, e de sentimentos.
afinal somos máquina, um tanto mais complexos.
mas maquinas, surdos. adormecidos.
basta ao infinito de si.
e aos olhos fechados. nada,
sempre ao futuro, sempre ao passado.
rir do respeito.
rir da musica que emociona.
rir do meu riso que era tão sincero, tão sincero.
tudo uma mentira. uma grande mentira.
basta de estar vivos, trêmulos, frágeis.
e que pare o vento. e os carinhos, e os cabelos.
já não há vento,
algum.
só se sofre o que quer.
só se chora escondido.
as historias são uma novelinha nojenta.
chega, perto de mim repete aquela fala, e aqueles gestos
que nunca disseram nada.
nunca se disse nada.
e é por isso que você se senta ai, com essa cara de estepe.
"e que não existe viver mais ou menos" só viver,
e por isso sinto tanto.