
não posso acreditar que esperei vinte anos pra ler Saramago.
não tenho o dom das palavras e, pra ser sincera, nem a prática necessária para aperfeiçoa-lo, se o tivesse.
admito sem humildade, no entanto, que tenho a capacidade de admirar quem o tem e, nesse apecto, para mim Saramago tornou-se um símbolo. seu humor irónico, metafórico, disfarçado, os comentários e reflexões ao cotidianos espalhados pelo texto, são pérolas que me dão prazer, mesmo quando discordo dele (na presunção de que possa eu julgar ou discordar de qualquer coisa que Saramago tenha escrito). E isso tudo após a leitura de apenas dois livros: Caim, emprestado, e As Intermitências da morte, comprado.
anseio por ler mais dele.
As Intermitências da morte (assim mesmo, com letra minúscula)... foi o último que li e separei alguns trechos que me tocaram, me falaram ou me divertiram de alguma forma e que ainda assim julguei que não ficariam descontextualizados nem estragariam o prazer de uma primeira leitura que fosse previamente revelada.aqui estão, espero que gostem:
"Momentos de fraqueza na vida qualquer um os poderá ter, e, se hoje passamos sem eles, tenhamo-los por certo amanhã"
"... as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, nem sequer os nomes que são na realidade os seus, porque os nomes que lhes destes não são mais do que isso, os nomes que lhes destes..."
"...ele (o rebanho humano) se move e se agita em todas as direcções sem perceber que todas elas vão dar ao mesmo destino, que um passo atrás aproximará tanto da morte como um passo em frente, que tudo é igual a tudo porque tudo terá um único fim, esse em que uma parte de ti sempre terá de pensar e que é a marca escura da tua irremediável humanidade."
"... a vida é uma orquestra que sempre está tocando, afinada, desafinada, um paquete titanicque sempre se afunda e sempre volta à superfície..."
"... o que à morte impressionva era ter-lhe parecido ouvir naqueles cinquenta e oito segundos de música (Chopin, opus vinte e cinco, número nove, em sol bemol maior) uma tranposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte,como se, irremediavelmente, alguma cousa ainda tivesse ficado por dizer."
